Sermão: «Procurarás a justiça, nada além da justiça»

SEMANA DE ORAÇÃO

PELA UNIDADE DOS CRISTÃOS 2019

ACTO DE ENCERRAMENTO

Igreja Metodista do Icolo e Bengo, 26.01.2019, às 9h00

Amados Irmãos e Irmãs,

«A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco»! É com esta saudação bíblica e típica do Apóstolo São Paulo que transmito o abraço cordial do nosso Arcebispo, Dom Filomeno do Nascimento Vieira Dias, que, não podendo estar connosco aqui fisicamente, quis manifestar a sua comunhão concreta com a oração e enviando-nos (a mim, ao Padre Adelino Moma, aos Padres Aníbal e Rufino Tchitue) para partilhar com os irmãos e com as irmãs aqui presentes estes momentos de louvor e súplica que são de toda a Igreja de Cristo. Faço-me, pois, portador deste abraço sincero e afectuoso aos excelentíssimos pastores e pastoras, aos reverendos e reverendas, sacerdotes e religiosas, verdadeiros obreiros do Evangelho de Cristo, e a todas as comunidades do movimento ecuménico que, seguindo os passos de Cristo, rezam e trabalham pela unidade de todos os cristãos. Bem-haja pela presença de cada um de vós e pelo vosso testemunho de fé. Deus seja louvado! Amém!

«Procurarás a justiça, nada além da justiça» (Dt 16, 20) – é o tema da nossa semana de oração, para o qual fomos já introduzidos pelo amado irmão pastor Vladimir Agostinho, na Igreja paroquial da Sagrada Família, no sábado passado. Estou em crer que, ao longo destes dias, ouvindo as interpelações dos textos sagrados e das palavras do pastor Vladimir, esforçámo-nos todos por viver os gestos concretos da justiça nos diferentes lugares e âmbitos da nossa existência e experiência como pessoas e como cristãos. Aliás, seria perdermos tempo, se não conseguíssemos viver, ainda que em forma de gotas de água, a mensagem de Cristo. De facto, o Apóstolo Tiago exorta-nos a sermos, não apenas ouvintes da Palavra, mas seus cumpridores.

O capítulo 16 do Livro do Deuteronómio pode ser dividido em duas secções: uma primeira, que parte do primeiro ao décimo sétimo versículo, aborda a necessidade das três peregrinações anuais: a Páscoa e a Festa dos Asmos (v. 1-8), a Festa das Semanas (v. 9-12) e a Festa dos Tabernáculos (v. 13-15). [Leia Êx 23.14-19;34.18-26; Lv 23.4-44; Nm 28.16—29.40.] E os versículos 16 e 17 resumem os regulamentos relativos às três peregrinações anuais ao lugar escolhido por Deus para a adoração (Ex 23.17;34.23).

A partir do v.18 até ao cap. 17, v.13, encontramos o segmento textual onde são abordadas a administração da justiça, a posição contrária do povo de Deus em relação à cultura pagã e a revelação divina. Como fios condutores que unem directa e indirectamente cada versículo, podem ser destacados os seguintes: (1) a justiça, (2) a liderança e (3) a adoração a Deus. Paremos um pouco nos versículos 18, 19, 20.

V.18 — Juízes e oficiais porás em todas as tuas portas… Eles julgarão o povo com sentenças justas. As áreas próximas aos portões das antigas cidades eram o centro da vida social e os locais onde se fixavam os juízes, para que julguem o povo com juízo de justiça. Isso era necessário porque o Senhor ama a justiça e abomina a acepção de pessoas.

V.19 — Não perverterás o direito, não farás acepção de pessoas nem aceitarás o suborno… A justiça é o atributo que consiste em lidar honestamente com as pessoas. No tocante à justiça divina, os juízes das cidades tinham de reflectir a justa natureza de Deus (Dt 32.4). Logo, não deveriam conduzir o processo sob um ponto de vista discriminatório em relação ao acusado, tampouco baseados em falsos testemunhos ou rumores. Além disso, deveria ser rechaçada a prática do suborno, ou seja, o recebimento de qualquer presente em troca do favorecimento daquele que o oferece, desnivelando, assim, a balança da justiça (Ex 23.8).

V.20 — Busca somente a justiça, para que vivas e possuas a terra que Iahweh teu Deus te dará. Portanto, a justiça, somente a justiça seguirás: em hebraico, o termo é sedeq sedeq, repetido duas vezes para enfatizar sua importância. Isso significa que os israelitas deveriam imitar Deus amando o que é justo e verdadeiro. A intenção do Senhor com todas as Suas instruções era o bem do Seu povo, expresso na sentença para que vivas e possuas em herança a terra que te dará o Senhor, teu Deus.

Amados Irmãos e Irmãs, como sabeis, a Palavra que Deus proferiu no Antigo Testamento encontra a sua realização plena em Jesus Cristo, a Palavra Incarnada. Diz o prólogo do Evangelista João: «E o Verbo encarnou, e habitou no meio de nós» (Jo. 1, 14). Jesus Cristo, o Ungido de Deus, o Enviado do Pai, o Messias Salvador, é o pleno cumprimento das profecias divinas, como testemunha Lucas 4, 14-21: «…[Jesus] enrolou o livro, entregou-o ao servente e sentou-se. Todos na sinagoga olhavam-no, atentos. Então começou a dizer-lhes: “Hoje se cumpriu aos vossos ouvidos essa passagem da Escritura» (vv.20.21). Sim! «O Espirito do Senhor está sobre mim, porque Ele me consagrou pela unção para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor» (cfr. Is. 61, 1-2).

Jesus é a luz do mundo, é o Mestre, é o Senhor! Doravante, povos e nações, pessoas e multidões deverão conformar os passos das suas vidas com o seu Evangelho, com a Boa Nova que Ele nos trouxe. É isto que transformou radicalmente a vida de São Paulo, de perseguidor de Cristo e da Igreja para anunciador incansável da Verdade de Deus. Ele exorta-nos em Romanos 12, 1-13: «não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito» (v. 2); e nos faz compreender que só na humildade e na caridade podemos construir a comunidade, «pois assim como num só corpo temos muitos membros, e os membros não têm todos a mesma função, de modo análogo, nós somos muitos e formamos um só corpo em Cristo, sendo membros uns dos outros» (vv. 4.5). E, apelando à unidade do Corpo de Cristo, diz: «Que vosso amor seja sem hipocrisia, detestando o mal e apegados ao bem; com amor fraterno, tendo carinho uns para com os outros, cada um considerando os outros como mais dignos de estima. Sede diligentes, sem preguiça, fervorosos de espírito, servindo ao Senhor, alegrando-vos na esperança, perseverando na tribulação, assíduos na oração» (vv. 9-12).

Irmãos muito amados no Senhor! O lema da nossa celebração ecuménica deste ano é «irmos de nossos discursos sobre unidade, justiça e misericórdia para acção e compromisso concreto que levem à prática da unidade, da justiça e da misericórdia nas nossas vidas pessoais e na vida das nossas comunidades cristãs». Sim! A primeira atitude a termos é o acolhimento da Verdade, a aceitação da Verdade de Deus na nossa vida concreta; esse Deus que nos foi revelado em Jesus Cristo; esse Deus que deve ser simplesmente adorado e para Quem devemos contínuas acções de graça; esse Deus que deve ser comunicado fielmente aos outros. Diz o Concílio Ecuménico Vaticano II: «É no mistério de Jesus Cristo, verdadeiramente Deus e verdadeiramente Homem, que se revela plenamente o mistério do homem».

E aqui se evidenciam a nossa identidade e a nossa dignidade como cristãos, a nossa vocação e a nossa missão no mundo, na sociedade e na Igreja. Esquecer Deus é esquecer o homem; distorcer Deus é falsear o homem e comprometer o seu futuro de glória e vitória. Amém! Grande e grave é a nossa responsabilidade, amados irmãos e amadas irmãs! As mentiras e confusões sobre Deus, que serpenteiam nas nossas sociedades e aumentam a miséria humana, têm a marca da nossa responsabilidade. Oremos e trabalhemos para que a futura Lei sobre a liberdade religiosa e de culto ajudem a família angolana a assumir a sua identidade como povo enraizado e mais unido em Cristo Redentor.

Neste sentido, o Papa Bento XVI, na sequência do Sínodo dos Bispos (entende-se católicos) sobre a missão da Igreja em África ao serviço da reconciliação, da justiça e da paz, escreveu uma Exortação Apostólica Africae Munus em Novembro de 2011, onde fala da necessidade de seguir e de viver a justiça de Cristo. Na verdade, se, por um lado, os antigos nos ensinaram que a justiça obriga a «dar o seu a seu dono – ius suum unicuique tribuere» (cfr. Ulpiano e S. Tomás de Aquino), por outro lado, é «o próprio Deus [que] nos mostra a verdadeira justiça, quando, por exemplo, vemos Jesus entrar na vida de Zaqueu e, deste modo, oferecer ao pecador a graça da sua presença (cfr. Lc 19, 1-10). E qual é então esta justiça de Cristo? As testemunhas daquele encontro com Zaqueu observam Jesus (cfr. Lc 19, 7); a sua murmuração desabonatória pretende ser uma expressão do amor pela justiça. Elas, porém, ignoram a justiça do amor que vai até ao extremo de tomar sobre si a “maldição” devida aos homens, para estes receberem, em troca, a “bênção” que é dom de Deus (cfr. Gal 3, 13-14). A justiça divina oferece à justiça humana, sempre limitada e imperfeita, o horizonte para onde deve tender a fim de se realizar plenamente. Além disso faz-nos tomar consciência da nossa indigência, da necessidade do perdão e da amizade de Deus» (Africae Munus, 25). Ainda neste sentido, diz Santo Agostinho: «se a justiça é a virtude que distribui a cada um o bem que lhe pertence, não é justiça do homem aquela que subtrai o homem ao verdadeiro Deus». Na obrigação de procurar Deus, o homem encontra a justiça. E a justiça de Deus é misericórdia, o amor de Deus é justiça. Deus manifesta o seu poder, quando perdoa. Por isso, sejamos capazes de amar, sejamos capazes de perdoar, para sermos justos como o nosso Pai que está nos céus.

Uma outra atitude concreta a assumir é o conhecimento e a vivência da verdade da história. Nós, irmãos caríssimos, temos uma verdade, temos a verdade de uma história feita pelo dedo de Deus; uma história que, embora marcada pelo pecado que escraviza e cria a miséria, busca incansavelmente a graça de Deus que liberta e renova na liberdade de filhos, porque «onde abundou o pecado, superabundou a graça de Deus», diz o Apóstolo Paulo. O povo de Israel, como escutámos no texto do Deuteronómio, jamais esqueceria a verdade da sua história de libertação da escravidão do Egipto. Esta libertação significa também para nós passar da condição de escravos para homens livres. Isto mesmo significa o Baptismo que recebemos e que nos torna novas criaturas. Por isso, não devemos nos conformar com a mentalidade deste século, com todas as suas formas de escravidão e de alienação, e muitas delas brilham e aliciam; mas nem tudo o que brilha é ouro, diz o adágio popular. Quando um povo esquece a sua história, perde a sua identidade. Quando um povo fica agarrado às suas más tradições, não se renova e, não aceitando renovar-se, este povo perde o rumo do futuro e a felicidade torna-se miragem.

O tempo já se adiantou. Por isso, concluo esta meditação deixando breves notas sobre algumas questões de justiça que nos afligem e nos atingem muito directamente: a) O direito e o dever de trabalhar; a responsabilidade do Estado e a colaboração de todos; o acesso ao trabalho e ao exercício da profissão dever ser aberto a todos sem discriminação injusta: homens e mulheres, não deficientes e deficientes, naturais e imigrados; o dever essencial do Estado é assegurar as garantias das liberdades individuais, de modo que quem trabalha e produz goze do fruto do seu trabalho e, portanto, se sinta estimulado a realizá-lo com eficiência e honestidade. O salário justo é o fruto legítimo do trabalho; recusá-lo ou retê-lo, pode constituir uma grave injustiça. Os responsáveis de empresas têm, perante a sociedade, a responsabilidade económica e ecológica das suas operações; estão obrigados a considerar o bem das pessoas, e não somente o aumento dos lucros. b) O amor aos pobres; aqui não se trata apenas da pobreza material, mas também as numerosas formas de pobreza cultural e religiosa. São João Crisóstomo lembra com vigor: «não fazer os pobres participar dos seus próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida». De facto, diz São Gregório Magno: «Quando damos aos pobres as coisas indispensáveis, não lhes fazemos generosidades pessoais; apenas lhes restituímos o que lhes pertence. Cumprimos mais um dever de justiça do que um acto de caridade». A solidariedade é uma marca clara do povo africano. c) Viver na verdade: o homem tende naturalmente para a verdade. Hoje se levantou uma tremenda cultura de mentiras e de mentira; são ofensas à verdade o juízo temerário, a maledicência, a calúnia. A maledicência e a calúnia destroem a reputação e a honra do próximo. Consideremos também o respeito da verdade: o direito à comunicação da verdade não é incondicional; cada um deve conformar a sua vida com o preceito evangélico do amor fraterno, mas este requer, em situações concretas, que reflictamos se convém ou não revelar a verdade a quem no-lo pede. Ninguém está obrigado a revelar a verdade a quem não tem o direito de a conhecer. Hoje vemos tanta falta de discrição e de respeito da vida privada! Tudo se expõe, de tudo se fala, e muitas vezes com um fundo de malícia e de perseguição. d) O combate pela pureza, através da pureza de intenções, da pureza do olhar e pela oração; a pureza exige pudor; a pureza cristã exige uma purificação do ambiente social. O nosso meio anda cheio de impurezas que confundem a mente e pervertem o coração, sobretudo das novas gerações. e) E, finalmente, a desordem das cobiças: é a avidez e o desejo desmesurado duma apropriação dos bens terrenos; quer-se ter tudo, quer-se possuir até as pessoas. Dali nascem as invejas, que na nossa cultura se traduzem em feitiçaria. Precisamos de cultivar os desejos do Espírito e a pureza do coração. Precisamos de querer ver a Deus: «Felizes os puros de coração, porque verão a Deus».

Celebramos esta semana de oração pela unidade dos cristãos à volta da figura do Apóstolo Paulo, cuja conversão ontem, 25 de Janeiro, fizemos memória. A nossa cidade de Luanda está dedicada a São Paulo. Oremos ao nosso Pai do céu para que sejamos bons cidadãos, que cuidam e trabalham pela construção desta casa comum. Com o Papa São João Paulo II, queremos dizer: «famílias, sede famílias; jovens, sede jovens; cristãos, sede cristãos». E nós acrescentamos: citadinos de Luanda, temei a Deus e respeitai o homem, respeitai a pessoa! Assim teremos menos mortes, menos lágrimas, menos tristeza. Que nosso Senhor Jesus Cristo a todos nós abençoe!

Padre António Rodrigues, o pregador, acompanhado do Coronel Garcia Matondo, presidente da Assembleia do CICA
Padre Adelino Moma
Rev. Vladimir Agostinho, Director do Departamento de Evangelismo e Cooperação

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