Dia dos Namorados

A correria pelo país é intensa, quando chega o Dia de São Valentim. Todos os anos, a história se repete. Adultos, jovens e adolescentes procuram, nesta simbólica data, renovar promessas e consolidar o amor, numa época de evidentes crises de relacionamentos.

O 14 de Fevereiro é vivido em várias latitudes e marcado pela incontável troca de lembranças e por um frenético movimento de compra e venda de presentes.

Nessa efeméride, há prendas para todos os gostos e bolsos. O importante é entrar no clima de uma celebração que já “agita” o Mundo desde o Século V.

Se, para uns, o Dia dos Namorados é a melhor data para demostrar amor e paixão, para outros, porém, é uma data normal. A verdade é que a cada Dia de São Valentim, as juras de amor se intensificam, mas as relações, hoje, parecem menos consistentes.

Há quem diga, sobretudo adultos, que o Dia dedicado aos namorados se tornou mais comercial do que romântico, em que os interesses de dar e receber presentes se sobrepõe à necessidade de amar, amadurecer o namoro e preparar os casais para o futuro.

Essa questão é ponto de discórdia entre vários sectores da sociedade, há várias décadas, sobretudo em Luanda, onde se multiplicam os apelos para uma ampla reflexão sobre o verdadeiro significado do namoro e sobre como deve ser aproveitado.

“Hoje, os jovens estão influenciados pelo consumismo, isto é, têm mais interesse material e se importam menos com o outro parceiro”, aponta o cidadão Melo Ernesto.

Para si, o Dia dos Namorados é um dia para demonstrar carinho para a pessoa amada, mas, lamentavelmente, esse tipo de romantismo está a perder-se com o tempo.

Caso de superação

Diavava Jacqueline de Deus e Kidimbo João de Deus, juntos há 30 anos, mantiveram os primeiros contactos de amizade ainda adolescentes.

Ele tinha 17 anos e ela 15. Os factos ocorreram em Kinshasa, capital da República Democrática do Congo.

“Nós estudávamos na mesma escola, vivíamos na mesma rua. Conhecemo-nos na escola. Queria ser meu amigo, eu aceitei, porque também gostei dele”, recorda Diavava Jacquele de Deus, com um sorriso rasgado nos lábios.

Um ano depois, Kidimbo teve de regressar a Angola, país que o viu nascer, com a finalidade de estudar. Diavava, apercebendo-se disso, não se incomodou e desejou sucessos ao namorado, na esperança de virem a ter uma relação duradoura.

“Ele explicou-me que ia estudar e eu disse que era boa ideia. Eu também aproveitei estudar”, indica Diavava, sublinhando que, desde aí, os contactos eram feitos por cartas.

Mas, como “nem tudo é um mar de rosas”, um assunto inesperado interferiu na relação. Passados três anos distante dela, Kidimbo engravidou uma jovem em Luanda, caso que provocou a separação inesperada.

“Ele arrumou outra namorada e a engravidou. Quando me informou do sucedido, pedi que cuidasse do futuro filho e prestasse atenção à jovem, ou seja, que me esquecesse”, lembra, agora com visível tristeza, o momento difícil.

O tempo foi passando e cada um tomou o seu rumo. Mas, por força do destino, um facto inesperado e triste forçou Diavava a recuar na sua decisão.

A bebé de Kidimbo adoeceu e acabou por falecer. Os familiares da jovem já não o queriam como esposo. Houve separação.

A mãe da criança decidiu partir para Portugal e ele ficou em Luanda. Kidimbo resolveu voltar para Kinshasa e explicou o sucedido à Diavava.

“Quando ele voltou disse: Jacquelina eu vim porque quero casar. Eu disse não. Como queres casar comigo, se já tens uma outra relação? Aí, contou-me tudo que aconteceu. Aceitei o pedido dele e dei-lhe um prazo de um ano para nos casarmos”, conta.

Kidimbo, ansioso em reparar o mal que provocara à pessoa que amava, cumpriu com a condição de Diavava. Ambos casaram e vivem unidos até aos dias de hoje.

Mas, nem tudo se passa assim na maioria das relações a dois. Muitos são os relacionamentos enfraquecidos.

Psicólogos apontam caminhos

A psicóloga Kanguimbu Ananás elenca vários motivos para o fracasso nas relações conjugais, entre as quais a desestruturação familiar e a pouca atenção que se presta na educação da juventude.

“Muitas meninas aprendem a lidar com o parceiro na rua. Os pais, mesmo sabendo que a fase da adolescência é delicada, não se preocupam com a educação de valores essenciais para um relacionamento ameno”, assevera.

Kanguimbu Ananás diz que, apesar da modernidade, não se pode estar afastado daquilo que são os valores e costumes nacionais, em que o respeito pelo outro é uma condição essencial, evitando-se os conflitos permanentes nos relacionamentos.

Por sua vez, a terapeuta brasileira Carita Celedónio, com longa experiência de aconselhamento de casais, critica a atitude de muitos parceiros que partem para a relação, sobretudo na fase de namoro, com interesses meramente materiais.

Aponta também a exposição da vida privada nas redes sociais, nos últimos anos, como um dos factores que tem estado a desestabilizar as relações.

“A exposição da vida amorosa nas redes sociais, bem como a prática da chamada -traição online, tem originado as crises de relacionamento”, sublinha.

Manter a relação a dois requer aceitar o outro, desejar estar com ele ou ela sempre e em qualquer circunstância da vida.

A profissional indica ainda que no amor não deve existir demonstração de força, mas sim respeito e equilíbrio.

Nesta senda, lamenta o índice de criminalidade entre os casais, por falta de entendimento, ciúmes e outras situações, o que demonstra certo desequilíbrio emocional e outras patologias de fórum psicológico.

Carita Celedónio deixa um conselho aos casais, principalmente aos mais jovens iniciantes, para procurarem conhecer o parceiro da melhor forma possível.

“O importa é estar atento, porque se em 90 dias não houver um passo firme por parte do parceiro ou parceira, isso é demonstração de que não existem sentimentos verdadeiros”, adverte.

Relações mal geridas

O acto de violência doméstica pode ser encarado como uma situação, pontual ou contínua, cometida por um dos parceiros (ou por ambos) numa relação, com o objectivo de controlar, dominar e ter mais poder do que a outra pessoa envolvida na relação.

Dados do Ministério da Acção Social, Família e Promoção da Mulher (MASFAMU) relativos a 2017, sobre violência doméstica, são preocupantes e apontam que Angola registou mais de seis mil denúncias, mais 400 em relação ano de 2016, a nível dos Centros de Aconselhamento.

O abandono familiar, seguido da violência psicológica, liderou a lista de denúncias. As mulheres são as que mais denunciaram, com 82,75 por cento.

A técnica sénior do MASFAMU Susana Simão fez saber, na altura, que o ministério recebia por volta de 10 a 20 casais por dia, com queixas que vão desde agressão física, falta de prestação de alimentos, problemas de fuga à paternidade e violência psicológica.

Para o pastor Hélder da Silva Eduardo, hoje os jovens entram numa relação para serem aceites por um grupo ou por interesses materiais, esquecendo-se que o namoro é a preparação e o passo decisivo para um casamento.

“Quem não tiver um namoro saudável, certamente que terá um casamento fracassado. É preciso saber qual é o objectivo de entrar num relacionamento a dois, quais são seus planos e motivações”, refere.

O pastor acrescenta que, quando a comunicação não é boa entre os casais, dificilmente o casamento será bem-sucedido, daí a necessidade de se pautar pelos princípios da palavra de Deus, ao amor e respeito mútuo.

A psicóloga Kanguimbu Ananás defende a necessidade de as famílias, igrejas e instituições afins ajudarem os jovens a primarem pelo diálogo nas suas relações, com a finalidade de melhorarem os comportamentos e manterem uma relação salutar.

“É verdade que a vida material pode ser importante, mas aquele afago, gesto de carinho, aquela combinação no olhar e nas falas, isso preenche qualquer relação”, remata.

Vissolela Cunha/Angop

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