IEA lança relatório de Monitoria Social: O documento aponta para relativo défice no saneamento básico em 11 localidades do Município dos Dembos

O relatório de Monitoria Social sobre o Saneamento Básico em 11 localidades dos Dembos, lançado recentemente na cidade de Caxito, Província do Bengo pelo Departamento de Desenvolvimento Comunitário da Igreja Evangélica de Angola, (DDC/IEA) sob o patrocínio da Open Society concluiu que existe um certo défice nas 11 localidades no que diz respeito ao saneamento básico (deposição de lixo em lugares apropriados, seu tratamento, posse e uso de latrinas), consumo de água tratada, uso de mosquiteiros e uma fraca resposta das autoridades locais à problemática do saneamento que é relativa na vila do Kibaxe mas absoluta nas demais Sedes comunais (Piri, Coxe e Paredes).

De acordo com o documento, apresentado pelo Rev. Eduardo V. Sassa, Coordenador da equipa de Monitoria, as famílias das 11 localidades do Município dos Dembos não depositam o lixo no contentor, fazem-no nas lixeiras situadas à uma distância razoável das residências, depois é queimado por quase metade da população enquanto outra não faz absolutamente nada.

Nas 11 localidades, 20,7% dos agregados familiares não possuem latrinas, com destaque para a localidade de Quinzala (42,6%). A maioria dos agregados familiares que não possui latrinas defeca ao ar livre (19,7%), contra 0,9% que defeca no capim atrás de casa, 0,4% no capim distante de casa e 0,2% no capim perto da fonte de água, respectivamente. Os agregados familiares de Quinzala destacam-se também na defecação ao ar livre (41%).

O relatório apresenta um quadro positivo das famílias das 11 localidades, no tocante à prática de lavagem das mãos, sendo que 96,2% das famílias afirmaram terem o hábito de lavar as mãos, destes 93,7% o fazem nos momentos apropriados e 93,8% com a ajuda de um detergente. A equipa de monitoria lança algumas dúvidas sobre a veracidade destes dados nas proporções em que os inqueridos indicaram, considerando o quadro nacional que é bastante deficitário e também a prática que se observa junto das 11 localidades.

Nas 11 localidades, apenas 48,8% de famílias usam mosquiteiros contra 44,3% que não o fazem. Contrariamente a isso, o quadro é positivo no acesso às fontes apropriadas de água (84%) mas a cifra desce ligeiramente quanto ao seu tratamento antes do consumo (63%).

O relatório faz também referência das implicações do relativo défice do saneamento básico na saúde das populações. A análise incidiu sobre 3 patologias: paludismo, cólera e a febre-amarela, o que não esgota a lista das doenças que se registam no Município relacionadas com saneamento básico. O paludismo lidera a lista tal como é no quadro nacional. 79% dos agregados familiares das 11 localidades registaram casos de paludismo nos últimos 6 meses. As fontes hospitalares confirmam a tendência progressiva do paludismo no Município de 2016 a Junho de 2018, quer na vertente dos casos diagnosticados, como nos que resultaram em internamento e morte. O documento regista casos de cólera e febre-amarela no seio de algumas famílias mas isso não foi confirmado pelas fontes oficiais. Constatou-se um nível alto de conhecimento da população das 11 localidades sobre os meios de transmissão, prevenção e sintomas destas 3 doenças, o que indica o trabalho positivo dos meios de comunicação social, actores e instituições sociais locais na divulgação da informação. Embora os números indiquem que os casos de doença registados no seio familiar foram encaminhados às unidades sanitárias mas a prática do dia-a-dia ainda revela uma forte crença da população nas fontes tradicionais de cura.

Recursos alocados ao saneamento básico

Os recursos financeiros que o Município recebe para o sector de saneamento sofreram oscilação no período de 2016 a Junho de 2018 (Kz. 2.846.461,36 em 2016, Kz. 43.000.000,00 em 2017 e kz. 823.948,82 até Junho de 2018). Estas alocações foram aquém das necessidades existentes o que resulta na existência da fraca resposta das autoridades quanto ao serviço prestado à população, o qual conta apenas com 20 baldes de lixo e uma motoriza de 3 rodas que faz a remoção do lixo para um aterro a céu aberto. O serviço é apenas circunscrito à vila de Kibaxe, abrangendo apenas duas localidades (São Paulo e Quimuzambo) das 11 localidades monitoradas. Apesar da exiguidade dos valores que o Município recebeu mas o Relatório chama atenção ao facto do aumento orçamental registado em 2017 não ter reflectido no plano prático de um aumento de qualidade do serviço prestado à população.

Recomendações

 O relatório apresenta 3 recomendações:

  1. Continuação do trabalho de mobilização social com o envolvimento dos membros de GAS (grupos de água e saneamento) lá onde existem e ainda funcionam, contando com o apoio dos elencos de Sobado e os actores políticos locais, ligados aos sectores em causa;
  2. Que o Governo Provincial do Bengo considere a possibilidade de a partir do próximo ano aumentar a alocação orçamental à componente de saneamento para o Município dos Dembos;
  3. Em caso de aumento de recursos financeiros à componente de saneamento básico, o sector dos Serviços Comunitários, além de estender este serviço às demais Sedes comunais, haja também um aumento de qualidade do mesmo serviço à população da vila de Kibaxe.

Metodologia

Quanto a metodologia utilizada, o trabalho de monitoria reportado no relatório, foi executado nas 11 localidades dos Dembos, nomeadamente, Padeiro, Kissala, YalaKatumbo, Quinzala, Quissaquila, Aldeia da Missão, Camboma, São Paulo, Quimazambo, Coqueiros e Banza.

O processo de recolha de dados compreendeu as etapas de selecção dos monitores; recolha de dados institucionais; realização de entrevistas; formação de monitores, aplicação dos inquéritos nas localidades seleccionadas, análise e apresentação dos dados em gráficos e tabelas com ajuda de SPSS (Statistical Package for Social Sciences) e finalmente a produção do relatório.

Igreja continuará seu papel de parceria

Ao longo da pesquisa iniciada em Outubro de 2017 a Julho do corrente ano, a Igreja Evangélica de Angola fez o seu papel sendo parceira do Estado nas componentes de sensibilização social e advocacia. Houve mobilização quanto ao tratamento de lixo e água, construção de latrinas, lavagem das mãos e o uso dos mosquiteiros, o que resultou na redução de doenças no meio das comunidades.

Das 40 localidades que compõem o município dos Dembos, limitou-se a trabalhar nas 11 devido à insuficiência de recursos financeiros. O próximo passo, isto é em 2019, de acordo com o Departamento de Desenvolvimento Comunitário (DDC) da IEA será direccionado para a monitoria no sector da saúde, no mesmo Município e com o patrocínio do mesmo parceiro.

O Administrador dos Dembos, Mateus Domingos Diogo Manuel, presente no acto, agradeceu o trabalho da Igreja afirmando que iria ajudar na mitigação do saneamento básico que ainda afecta as comunidades. “A Igreja deixa-nos um documento importante sobre os dados lançados no Relatório”, referiu o governante que solicita a mesma para continuar a olhar para os aspectos sociais para além dos espirituais.

Por seu turno, o Secretário Geral da IEA, Rev. Estanislau Barros parabenizou a equipa do DDC afirmando que este trabalho era uma fonte de informação que iria ajudar na resolução dos problemas que afectam as comunidades.

Inicialmente, o líder da IEA exortou os presentes, sobre a responsabilidade do homem na conservação do meio ambiente. “Para garantir a nossa saúde e das gerações vindouras, temos que assumir a responsabilidade de proteger o mundo que Deus criou”, rematou.

Sobas dos Dembos na Sessão
Rev. Eduardo Sassa, Director do Departamento de Desenvolvimento Comunitário
Mesa do Presidium

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