O Fanatismo religioso – Sintomas e Consequências

*Carlinhos Zassala

“..todos os crentes parecem escandalosos e indiscretos; procura evita-los” (Nietzsche)

  1. Introdução

É bom começar o nosso artigo com a seguinte afirmação: “a religião é uma crença mas nem toda a crença é religião”.

Antes de falarmos do fanatismo religioso, permita-me apresentar o método de doutrinação fanática, resumidamente este método apresenta as seguintes étapas ou fases que são quatro:

1° A fase de conforto: que é uma fase de acomodação. É de salientar que em Angola, mais de 70% da população professa a doutrina cristã baseada na teologia de salvação, que procura as origens da humanidade, a missão na terra e o destino; é o caso da igreja católica, e as igrejas ditas protestantes; baptista, metodista, congregacional, evangélica entre outras.

Hoje fala-se em Angola de proliferação de igrejas e seitas que recorrem a teologia da prosperidade, tendo como objectivos além do espírito mercantil, a solução de todos os problemas sociais, económicos, de saúde e a busca de bodes espiatórios (feiticeiros), como os fundadores das seitas são dissidentes das igrejas existentes, nesta fase de conforto buscam uma base bíblica para não assustarem os aderentes.

2° A fase de depersonalização: essa etapa consiste em contrariar o sistema cognitivo existente ou apagar os conhecimentos e os laços afectivos com os parentes, familiares, colegas, amigos e todos que não aderem a nova denominação. Constitui-se um mundo fechado, únicos detentores da verdade e da salvação.

3° A fase de nova personalização: nesta etapa que é de lavagem de cérebro os ensinamentos e práticas consistem na criação de um novo sistema cognitivo, bloquear a consciência e introduzir novos conhecimentos baseados na obediência cega, sem questionamento aos líderes da nova denominação, idolatrando o líder espiritual e os principais responsáveis.

4° Fase de fanatismo (que faz matéria do nosso artigo): o fanatismo vem do latim “fanaticus” quer dizer “o que pertence a um templo fanum. O indivíduo fanático ocupa o lugar de escravo diante do senhor absoluto, que, pode ser uma divindade, um líder mundano, uma causa suprema ou fé cega.

O fanatismo é alimentado por um sistema de crenças absolutas e irracionais que visa servir a um ser poderoso e empenhado na luta contra o mal. Tendo origem no dogma religioso, foi o fanatismo religioso que fez muitos seguirem Jin Jones (Templo do Povo), Asahara (Verdade Suprema), David

Koresh (Ramo davidiano), Jo Dimambro (Templo Solar) e tantos outros místicos charlatões que terminaram causando tragédias colectivas, noticiadas no mundo todo.

O fanático está sempre disposto a dar provas do quqnto sua causa suprema vale mais do que as próprias vidas: dele, de sua família ou mesmo de toda a humanidade. Ele mata por uma ideia e igualmente morre por ela. Ver exemplos de homens bomba e do Boko Haram na Nigéria.

  1. Os Sintomas do Fanatismo

Os sintomas do fanatismo em grupo são: orações, privações, peregrinações, jejum, discursos monólogos e martírios que podem terminar com o sacrifício da própria vida visando salvar o mundo das “trevas” ou do que ele entende ser “o mal” (mundano).

O fanático não fala, faz discurso; é portador de discursos prontos cujo efeito é a pregação de fundo religioso. Faz discursos e não fala, porque enquanto a fala é assumida pelo sujeito disposto ao exercício do diálogo, da diléctia, do discernamento da verdade, os discursos, especialmente o discurso fanático, fazem sumir os sujeitos para que todos virem meros objectos de um desejo divinizado; servir ao desejo devido e á produção da repetição de algo já pronto (vídeos, cassetes) onde o retorno do recado do sujeito faz do Eu (ego) um porta-voz de um sistema de crenças moralistas carregado de ódio em relação ao suposto inimigo ou adversário que precisa de ser destruido para reinar o bem.

Os textos sagrados, tomados literalmente fornecem a sustentação “teórica” do discurso fundamentalista religioso; com ele, o indivíduo acredita, a priori, estar de posse de toda a verdade e por isso não ceda ao trabalho de levantar possíveis dúvidas, como confrontar com outro ponto de vista, ou desvelar outro sentido de interpretação, ou ainda contextualiza-lo, etc.

O fanático tem certeza e isso lhe basta, já que a verdade tem estatuto de objectividade, na medida em que consiste na correspondência aos factos, na possibilidade da discussão racional com sentido de comprovação. O pastor, apóstolo, profeta, rabino, padre ou qualquer pregador de rua, vivem o circuito repetitivo do monólogo da pregação; acreditam que “vale tudo” para difundir a “verdade única” que tocou e o transformou para sempre.

III. Psicologia do Fanatismo

Do ponto de vista psicopatológico, todo fanatismo parece ter relação com a fuga da realidade. A crença cega ou irracional parece loucura quando se manifesta em momentos ou situações específicas, porém se sua inteligência não está afectada, o fanático aparentemente é um sujeito normal. No entanto, torna-se um ser potencialmente explosivo, sobretudo se o fanatismo se combinar com uma inteligência tecnologicamente preparada. Fanático inteligente é um perigo para a sociedade. O Terrorismo por exemplo, que actua com a única meta de destruir inimigos aleatórios é realizado por indivíduos fanaticos cuja inteligência é instrumentada apenas para essa finalidade.

O fanatismo parece surgir de uma estrutura psicótica. O facto do sujeito se rever como o único que está no lugar da certeza absoluta, de ter sido escolhido por Deus para uma missão “x”, já constitui sintoma suficiente para muitos psiquiatras diagnosticarem aí uma loucura ou psicose. O fanatismo está mais para a parafrenia que para a paranoia. Para sua lógica, as vítimas são os únicos responsáveis. O mundo fanático é dividido entre “os eleitos”, que serão arrebatados, e os que continuam nas trevas “os mundanos” e que precisam ser salvos ou serem combatidos por todos os meios, pois “ são forças do mal”.

  1. Os primeiros Sintomas de Fanatismo e suas Estratégias de Sedução

O início de qualquer fanatismo consiste, em primeiro, reconhecermos um sujeito ou grupo estarem convictos, quando julgam-se de posse de uma certeza que recusa o teste da realidade, Nietzsche dizia que as convicções são piores inimigos da verdade do que as mentiras.

Segundo sinal do fanatismo é quando alguém quer impor a todos de modo tirânico a verdade única extraída de sua inspiração ou crença absoluta.

Os recém convertidos de qualquer seita religiosa estão sempre convictos que, finalmente , contemplam a verdade e essa tem que ser imposta a todos, custe o que custar.

O terceiro indicativo de fanatismo é quando uma pessoa passa a colocar uma causa suprema (podendo esta ser justo ou delirante) acima da vida dela e dos outros.

Quarto, quando um indivíduo e/ou grupo se isolam da convivência familiar e social e adaptam um modo de vida narcisico (no igual modo de vestir, de cortar ou não cortar o cabelo, no jeito de falar, nas regras de comer, etc) enfim, quando uniformizam seu discurso, gestos, postura, atitudes em geral e punem os que se recusam a seguir as regras impostas. Entrar para um prupo de fanáticos implica em renunciar: pai, mãe, os filhos, os amigos, o lugar onde viveu, o trabalho, enfim, os membros são persuadidos a matarem os vestígios simbólicos da vida anterior para fazer renascer a vida em base moral e de fé.

Quinto, quando o indivíduo e/ou grupo perdem o bom senso na lógica da comunicação e nas acções do quotidiano. O discurso passa a ser repetitivo e estranho à vida comum.

Sexto, indício de fanatismo é quando se perde o sentido de respeito e humanidade para com os diferentes, em nome de uma causa transcendente.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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CIORAN, E. Geneologia do Fanatismo, In: Breviario da decomposição,

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ENZNSBERGER, H.M, Paranoia da autodetruição, Folha de São Paulo,

11/11/2001, 5-7.

KURZ, R.A. Síndrome do obscurantismo, Folha de São Paulo – MAIS

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NIETZSCHE, F. Além do bem e do mal, São Paulo, Hemus, s.d.

ROUANET, S.P. Os três fundamentalismos, Folha de São Paulo – Mais

21/11/2001.

*Carlinhos Zassala, Doutor em Psicologia Social e da Personalidade pelo

Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Professor

Catedrático.

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